Paralisia
Paralisia
Há um espaço entre esse título e esta linha que demorou muito.
É precisamente esse espaço branco o que estou chamando de paralisia.
Existe uma teoria provavelmente muito bem escrita e explicada que usa como conceito o termo ‘não lugar’. Quero hoje que ‘não lugar’ e paralisia sejam sinônimos.
É meia noite. Tenho uma prática recorrente de sair de casa de madrugada e comprar dois ou três cigarros pra organizar as idéias. Um eu fumo no caminho, o resto quando chego em casa, enquanto escrevo. É um acumulo de ansiedade que provoca isso. Se somos uma máquina a ansiedade é uma espécie de fluido componente, algo envolvido no motor de partida. Deve ser uma química cerebral que nos induz a não sermos estáticos ou repetitivos. Saciamos nossas ansiedades fazendo coisas indiretas a sobrevivência e reprodução. Para isso nossos fantásticos desenvolvedores americanos inventaram o Messenger, o Orkut, o youtube, o flickr, o fotolog, o Word e tantos outros.
Tava no Messenger, olhei um porrilhão de comunidades e profiles do Orkut, páginas do flickr e do fotolog. Se fossemos obrigados a acessar todas essas coisas, talvez não fizéssemos tanta questão. É justamente por isso que ficamos perambulando por essas coisas, por que é inútil. Somos vacas pastando. Não é o desígnio de deus nem uma conspiração corporativa. Nós ocupamos eles, eles se ocupam de nós.
Cansei de acessar, fiquei ansioso por isso, peguei o carro e fui comprar cigarros picados na rodoviária.
Pra organizar o pensamento.
Às vezes dá certo.
Ainda não é o caso.
No caminho de volta a grande cena: uma retroescavadeira tombada de lado perto do balão. A polícia com luzes e cones. Dois peões sentados e um deitado com as mãos na cara, como se tivesse na pior ressaca do mundo.
Tente visualizar: Sobradinho, cidade de merda, madrugada, tudo deserto, numa das vias principais uma maquina gigantesca tombada de lado. Um thumbnail do apocalipse.
***
Um motor consome, queima líquidos e libera gases. Nesse ínterim ele te transporta de um lugar para outro. Pode gerar energia e fazer outras coisas. Os filmes americanos nos mostram que podemos pegar uma mangueira, conectar no escapamento do carro e levá-la para dentro por uma fresta na janela (veda-se o resto da fresta com uma toalha úmida). O gás é letal e vagarosamente te mata. A morte vem antecedida por um sono confortável. Eis um suicídio digno, seus parentes te encontrarão provavelmente com uma expressão suave, como um bebê adormecido. Na pior das hipóteses mais integro que quem mergulha no meio do shopping ou mete um chumbo no coco. Uma morte limpa que não oferece riscos nem perdas para os outros, ninguém vai raspar suas partes de lugar nenhum e o carro poderá ser usado novamente.
Sobradinho é uma cidade satélite de Brasília. Tenho que ir e vir de Brasília todos os dias. São os 40 minutos mais lúcidos do dia. É um momento livre de ansiedade. O trânsito -ir de um ponto para outro- oblitera a ansiedade extra-veícular de uma forma quase sobrenatural.
Há mais ou menos um ano atrás um mecânico estúpido trocou o escapamento do meu carro. O escapamento novo ficou levemente elevado de modo que uma porcentagem da saída de gás ficava soprando numa curva do pára-choque. Essa curva tinha o design perfeito pra jogar o gás na ventilação interna do carro.
