Intercraniano

Intercraniânos

intro

Dormir num quarto com uma tv ligada foi bem nostalgico. No 2º filme resolvi que seria necessário desligar a tv para dar início a uma série de pensamentos desastrosos. Lembrei da época em que dormia todas as noites com a tv ligada. Das férias que eu passava com insônia na cama dos meus pais, inventando todo tipo de desastre para minha família que viajava. As vezes pensava também em alguém invadindo a casa e eu heróicamente banindo o malfeitor. Ia dormir quando sol estava nascendo, com uma pistola semi automática engatilhada. Foram varias chances de ter hoje uma bala alojada em algum lugar dos membros inferiores da forma mais esdrúxula possível.
Novamente imaginei a morte dos meus pais. Com a pior paciencia que as 4hrs da madruga pode dar.Os eventos que sucederiam. Meu enorme pesar. Amarrados nesse pensamento vieram vários outros, tão sufocantes quanto. Como uma guerra. Como uma mesa de discussão. As vozes começaram a se tornar nítidas. Lembrei me de uma conversa sobre ordens vocais que damos a nos mesmos. Do tipo ‘Ei rapaz, não vá cagar toda sua vida agora’. Tentei distinguir essas vozes nessa discussão. Haviam mais donos dessas vozes do que eu me permitia imaginar. Com o conhecimento dessas vozes, o assunto passou a ser a característica de cada uma e aos poucos a situação foi apaziguada. Aos poucos fui domando esse pensamento e ao final descobri que não há uma voz uníssona, a minha voz está enovelada em todas as outras. Ninguém domou ninguém, e que talvez não existisse ou fosse impossível identificar, estaria tão escondida quanto a alma. Pensei que pudéssemos ser o resultado do pingue-pongue dessas diversas intenções. Depois lembrei de um jogo que gostávamos aqui na minha rua ‘7 cortes’. São várias pessoas em círculo, levantando uma bola de vôlei, contando em coro 1, 2, 3… e no 7 alguém corta, se a bola pegar em alguém, esse vai para o meio da roda. Quando alguém que está no meio leva bolada, o mesmo pode retornar à roda. Todos tentam trabalhar em conjunto para chegar ao 7. e quando chega lá todos querem cortar, ninguém quer levar a bolada.

e essas vozes nunca se calam. Nem quando voce trabalha nem quando dorme.

Intercraniano, parte I

-Sobre o que é isso?

-Sobre loucura.

-E o que você quer que as pessoas entendam nisso?

-As vozes. Que ninguém está sozinho dentro da própria caixola. E que uma certa seqüência de eventos ou pensamentos pode dar massa para essas vozes. E é aí que tudo começa.

-Então você quer incitar esse conflito, certo?

-Alguns ocorridos parecem pedir uma reflexão direcionada. Isso é sobre loucura. Coletiva e pessoal.

-Ok. Pode começar.

-Vou começar lendo minhas anotações… meu papelzinho..

‘Pisca a espoleta. Acende o cigarro.

O texto surge do branco. O cinzeiro é preto.

A carteira no bolso entorta a nádega direita.

Direita é o lado certo das coisas.

Uma seqüência lógica dá razão a qualquer um.

A razão favorece a lucidez.

Isso é o que parece ser direito.

Mas não é.’

-A loucura se apodera da seqüência lógica… é um termo chulo e mal usado, tentarei tornar o uso dessa palavra aqui mais decente… loucura parece derivar da lógica que eventos seqüenciais sugerem.

-Você é bem pretensioso.

-Minha teoria é que qualquer pessoa pode ficar louca se uma seqüência de acontecimentos específicos ocorrerem. Não é a gravidade de cada acontecimento isolado. É uma questão de sincronismo, percepção e catalisadores.

Para que eu explique bem é preciso muita perícia na hierarquização lógica. Por isso vou pelo caminho que parece ser o mais fácil, o cronológico.

Intercraniano II

-Não há nada a ser explicado. Você vai apenas se sujar todo. Apague esse cigarro. Volte pra casa.

-Aqui é minha casa, não posso abandonar sem falar do Sonho da Exposição do Assassinato e de mim. São eles os loucos. Somos nós os censores. É possível um homem viver 25 anos nos padrões de normalidade e enlouquecer. É possível um homem de 55 anos não suportar a tensão dos pensamentos e se matar. É possível uma mulher de 20 anos entrar numa delegacia achar uma arma e atirar na nuca de uma escrivã. É possível um louco depois de uma década imerso na escuridão de pensamentos desconexos retomar realidade.

-Se não vai embora apague o cigarro pelomenos… por favor.

-Um cigarro pode ser um vício, um charme, uma doença ou pode ser um fixador pontual de eventos seqüenciados que te desencadearão uma loucura a ser registrada. Você está quebrando minha hierarquização cronológica. Não me interrompa mais. Dessa vez tem mais de uma pessoa nos ouvindo, se voce ficar me bagunçando elas se entediarão e iram embora antes que eu termine. Deixe me falar do sonho.Há o sonho e há os elementos da realidade que o tangenciam. No dia do sonho fomos numa lanchonete e um vigia de carros meio doido passou rapidamente por lá, o que me lembrou do meu ultimo contato com doidos: Saiamos dum estacionamento e um homem ferido que não era vigia me parou para dizer que se estava vivo não era porque ele queria, era porque deus o obrigava. Quer saber o quanto um cigarro pode fazer mal?

-Não.

-Deixe a fumaça fluir entre o óculos e olho.

Interrompimento

É um exercício de contar o que é relevante.

A masturbação antecede o surgimento de polegares opositores

E teleencéfalo altamente desenvolvido.

Isso ainda é sobre loucura, algo para ser dito quando eu entrar no apocalipse, a última parte do que eu tenho para falar. Vou quebrar a hierarquia cronológica, porque ainda estou de certa forma a imerso nessa situação, e se não for assim não posso falar, e se falar de outra coisa, serei contaminado por essa situação por essas imagens, pelos olhos e pele brancos e qualquer coisa que eu fale de uma forma ou de outra será sobre esse assunto. Tudo é incerto.

Uma face longa e branca, os músculos contraem por dentro, puxam a pele de encontro aos ossos, como no rosto de todo mundo, só que esse tem algo, algo que sugere uma criação. Como se esse rosto tivesse sido feito de propósito, como se cada coloração tivesse sido testada antes numa paleta, planejado com intenções estéticas, com todos os defeitos que só um artista poderia fazer, um pintor, daqueles que sabem todas as minúcias da técnica, das cerdas do pincel a ser utilizado, de qual animal pertenceu, qual foi a vida desse animal, da era geológica do pigmento, da moagem, da deposição da tinta e todo o resto. Um escultor fez a juntas, por isso que ela anda daquele jeito. Por isso tudo que ela faz é diferente. Nenhuma aparição dela parece fugir de um requadro, de um planejamento cinematográfico, é como se ela fosse repintada e remodelada a cada instante, seguindo a conspiração compositoria de todos elementos em cena. Como se tudo que existe fora ela fosse cenário, planejado para compor com ela. Se foi uma reunião de artistas para produzi-la, posso especular que o pintor era um homem influenciado pelo neoclássico, a escultora uma lésbica apaixonada por desfiles, e quem lhe fez a bunda, o umbigo e a buceta é um pervertido, um libidinoso amante da literatura erótica e de praticas sexuais desviantes.

Vendo de fora ela é uma aparição, a moça de branco, uma morta viva, a moça do lago. Ela deve ter morrido afogada, a luz que incide sobre a pele lembra as filmagens submarinas, como se ela andasse todo o tempo debaixo dagua com o cabelo a ondular. Uma vez feito o contato seu rosto começa a pertubar, vem do escuro como uma placa branca com dois olhos, dois furos. E fica impossível não pensar no abismo.

Dizem que tragadas rápidas estimulam o cérebro. As profundas e demoradas, características dos viciados em nicotina, sedam a massa cinzenta. Hoje estou optando pela nº 2. Entro no Sexshop.

-Posso ajudá-lo senhor? Pergunta a moça com um sorriso escandaloso.

-Eu imagino que as pessoas que venham aqui na maioria sejam sinceras quanto o que querem. Mas eu tenho certeza que você escuta umas boas desculpas esfarrapadas de clientes querendo comprar um cinto com consolo, ou meio metro de rola preta de borracha, ou chicotinhos que não sangram ninguém.

-é.

-A minha é das boas: sou desenhista, comprei um sofá preto. Quero desenhar um modelo usando entre 6 e 8 cintos com consolos e uma máscara com dois, interagindo com 3 ou 4 mulheres, homens ou transexuais. Também preciso de máscaras de animais, mas imagino que vocês não tenham disso por aí.

-Temos sim, senhor. Também temos uma vaquinha com um vibrador feminino embaixo do rabo. Se você se interessar por enemas, também temos… não sei se você sabe, mas é a ultima moda de emagrecimento das estrelas em holliwood: lavagem intestinal. É uma boa oportunidade de você perder esses quilinhos a mais com um toque de prazer.

Isso não é intra. É Extracraniano.

Não percam tempo lendo isso. É inútil. Não estou falando sobre nada.

A aula de arte e loucura acontece na sala saltimbancos no IdA-UnB.
Antiga sala dos artistas cênicos.
Muita pele se esfregou naqueles tacos.
Muitas gargalhadas, gritos e choros cênicos as paredes ouviram.
Alguma coisa, ínfima que seja, de manicômio ainda reside naquela sala.
Essa coisa me fez uma ‘anedota’ -como diria o regente da confluência hipnagógica- um dia desses.
Um desses desenhos que fiz, não me lembro qual, ficou inacabado porque a grafite da lapiseira tinha gastado até a ponta. Tirei esse resto inútil de grafite e deixei sobre a mesa. Peguei outra lapiseira e continuei.
O Regente Maracandacas gosta que as pessoas fiquem perto dele enquanto ele conta dos loucos, então temos que arrumar as mesas de um modo que lhe agrade, mas que desagrada as outras turmas que sempre devolvem as mesas para a forma original em ‘U’.
Sete dias depois aconteceu o colegiado.
Colegiado é uma reunião do corpo acadêmico, no caso do VIS, uma reunião de professores.
Tal reunião acontece na sala saltimbancos.
Com as mesas em ‘U’.
Sete dias depois eu me sentei num lugar, um lugar onde eu poderia ficar discretamente desenhando o chefe do departamento (meu próximo post)
Apoiei-me sobre mesa para começar o desenho e lá estava um pequeno pedaço de grafite 0.5. Saquei minha lapiseira (a qual um dos professores me pediu emprestada e depois admirado resolveu anotar o nome e modelo) e devolvi-lhe o grafite. Era o mesmo grafite. A mesma porra de grafite que eu tinha deixado na aula de arte e loucura 7 dias atrás. É uma penca de coincidência duma vez só. Costumo levar com um sinal, no caso acho que era um sinal bem simples: recarregue sua outra lapiseira.
Só fui entender isso quando não pude terminar esse desenho aí de cima por falta de grafite.

Depois de um tempo a pupila rodeada da íris azul e do rosto branco coberta do cabelo vinho me arranjou um grafite, e deu pra chegar até aí.

Então, vamos retomar tudo. Eu tenho que contar do sonho, já enrolamos demais. Temos dois desenhos novos, feitos dentro da sala, um na aula de loucura e outro no colegiado, precisamos andar com a coisa sobre a loucura. Ninguém deve mais lembrar. Ninguém deve mais querer saber da minha história. Era o sonho. Eu já nem me lembro mais. Me lembro de me lembrar da lembrança. Era assim: sonhei que um amigo tinha se auto diagnosticado louco e precisou de alguém para ir ao hospício. Eu o levei ao hospício, ele se tratou e saímos de lá, tudo voltou ao normal, um sonho com início, meio e fim.

É só isso?

Droga. Eu não lembro mais porque eu tinha que contar do sonho.

Deve ser a quantidade de fumaça no teu cérebro.

Vai tomar no cu. Era importante. Eu já te falei pra parar de falar do cigarro. Eu tenho vários dados, posso me alongar na descrição do sonho e dos fatos que serpenteiam nele. Quando você está sonhando é assim: a realidade é como um dragão chinês serpenteando no oceano, costurando ar e água, imergindo e emergin… você viu?

o que?

a fumaça serpenteou como um dragão bem na hora que eu falei… olha ela começou a circular embaixo da luz. o dragão mordeu o próprio rabo. Lembra o que isso significa?

- A Lemniscata.

-Não.. da aula de loucura… o ourobolos, a cobra indo comer o próprio rabo. Lemniscata é o infinito.

-então.. é a mesma coisa.

-a cobra come o rabo, depois o corpo, a cabeça e acaba, finito.

-quando ela come o rabo e etc, isso vai pro estomago dela, que ainda é ela. Comer não é desmaterializar, então ela a digere mesma para formar a matéria dela. É um ciclo.

-quando você come, você aproveita uma parte e a outra você caga. Então cada vez que ela se comer ela vai perder uma porcentagem dela mesma. Uma parte dela vai virar bosta.

-Lemniscata é o oito deitado. O infinito

-Algumas pessoas acreditam em aura, em resíduos não materiais que ficam por aí, nos lugares. A minha teoria é que quando você está acordado, é a vez do sonho serpentear. É aí que aparecem as coincidências, o deja vu. Na noite do sonho, dormi perto do cachorro. o cachorro gemeu a noite inteira. Por isso os doidos estavam sempre sentindo dor e gemendo, por isso a recepcionista nos entregou um estetoscópio que era também um headfone. Passei o sonho inteiro sem usá-lo. O ambiente ficava cada vez mais esmagador. Em um momento, no pátio do hospício passou um cara sendo carregado por dois funcionários. Ele estava nu e chorava, tinha arrancado o pau com as unhas e toda a pele frontal das coxas. Esses doidos às vezes pareciam com mortos vivos, eles não sangravam, era tudo coagulado, como frutas cristalizadas ou carne seca, como os cadáveres conservados da medicina –com glicerina e formol – de alguma forma essa textura tem algo haver com minha ultima ação antes de dormir: trocar o lençol da cama. O cachorro numa atitude inédita subiu nessa cama e a lambuzou com muco do focinho e do pinto. | Talvez pelo nojo que fiquei da cama, sonhei um sonho nojento: depois que entramos no corredor, antes do cara sem pinto, numa das ultimas macas haviam pedaços de uma pessoa negra, com tufos de pelo, como um gato preto morto fatiado, parecia que um doido havia sido despedaçado como um urso de pelúcia velho em cima da maca, e deixaram os restos lá, mas tudo já bem seco e levemente oleoso. Não fedia, mas foi o preciso momento que demonstrou toda a macabreza do lugar, haviam canibais lá, os doidos se dilaceravam uns aos outros.

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