Crash
É uma hisoria bem simples. A história da minha vida. Começa com a câmera filmando o carro de longe, e enquanto se aproxima vem a minha voz em off. Me apresento. Meu nome é Otário. PaulOOtário. Blá blá – tirar dos textos antigos -
O velho testamento é muito direto. “e no 6° dia deus criou o homem”.. não é bem assim. Pá ´pum. Primeiro ele juntou uns galhos quebradiços, depois ele molhou um pouco e grudou miolo de pão, depois com fios de cabelos fez emaranhados nas juntas e esticou o miolo de pão pelo corpo. Aí ele banhou em cera, e deixou uma temperatura constante para que a cera sempre se remodelasse. Somos frágeis. Na batida sinto meus ossos se empurrando, rompendo suas cápsulas, veias rangendo. O corpo continua e eu parado. O carro para e o corpo vai. O volante fica. O cérebro fica.. enquanto meu esqueleto quer sair minhas carnes, a comida no meu estomago, quer ficar. Dois corpos não ocupam o mesmo lugar, por isso da merda. Movimentos bruscos detonam as coisas. Choques espatifam qualquer coisa. Acontecem choques em cadeia. Tudo se arrebenta. Depois vai a calmaria do desmoronamento. Nada esta preso em nada. O cérebro escorre pelo nariz. A medula sai pelo cu, junto com a bosta. A urina volta pros rins. Pulmão espreme coração que cutuca o estomago. O estomago vaza seu acido em vingança, o pulmão injeta bolhinhas de ar entre um e outro. Mais puto ainda é o coração bombeando forte o sangue. Artérias esticadas no máximo órgãos querendo explodir. Pum pum pum. Arrota-se o peido, tosse sangue. Caga-se víceras. Estou desorganizado. Literalmente. E isso dói pra caralho.
E é bem quando você pensa. Isso é uma puta duma merda que me aconteceu. Que puta azar. Talvez eu seja um cara muito azarado, e não poderia ser pior…
Agora seria interessante voltar dois dias atrás quando eu decido que preciso comprar uma maleta de plástico para organizar minhas ferramentas de trabalho. Alicate de clipagem. Para preparar cabos de rede, onde quer que seja. Imã em forma de antena para pegar aqueles parafuzinhos que caem entre a placa e o gabinete. Pulseira antiestática para preservar os chips do micro. Alicates, chaves Philips. Drivers removíveis. Cds de instalação. Windows. Pincel para limpeza. Separar objetos por funções especificas. Tirar da gaveta do escritório. Longe da agulha de crochê. Das linhas de costura. Da cola de silicone. Uma maleta para transportar meus itens para sua função. Fiquei entusiasmado de levar minha maleta pro carro. Hoje vou reconfigurar a rede do escritório. A maleta cabe perfeitamente entre o banco de traz e o da frente. Fica bem calçada. Vibrações podem danificar os drivers moveis. HD portátil.
Hoje de manhã tenho minhas ferramentas organizadas dentro de uma caixa que cabe perfeitamente entre o banco de traz e o da frente, calçada e prendendo o cinto que dá uma volta sobre a maleta. É lógico que se percebe esse tipo de coisa. E por mais que você seja educado a colocar o cinto todos os dias, você nunca espera que vá bater o carro.
E é quando você bate o carro. puxadas fortes travam o cinto. a força se divide entre os pontos fixos. A maleta não é um ponto fixo. Tudo é relativo. Numa batida, as coisas não são as mesmas. Você flutua. Sua maleta é uma casca de ovo. Sua cabeça é uma bola de demolição. Coberta de chantili.-pele-. Você atravessa o vidro.
Pausa.
Não considere uma metáfora, mas esse é o momento exato do meu nascimento. Tem uma religião que tem um ritual de passagem para garotos de 13 anos. É um renascimento. Os velhos pegam o garoto nu e o passam por galhos bifurcados de árvores. Significa que ele agora é homem. Quando minha cabeça sai, penso que essa foi a parte difícil. É quando meu cordão me puxa de volta para o meu útero simbólico. Meu útero contemporâneo. Útero de intermediação. Para ir de um lugar para outro você entra no útero e desce. As vezes você é interrompido. E é obrigado a nascer. Estou nascendo prematuro. E é quando a gravidade me quer de volta na posição fetal. Meu rosto desliza pelos cacos de volta para onde eu estava. Como um boneco do Judas.