Arvre Maria
Inale.
Pegue tanto ar quanto você puder.
Exalo meu difícil exercício de tradução. É difícil simplificar.
Oxigênio.
Force seu diafragma, sinta a epiglote como uma bolha de sabão. Vasos espremidos no
fascea.
Vê como seus ossos são incômodos?
Infle.
Mais.
Seus nervos supérfluos.
Pegue o ar com as mãos. Injete mais. Mantenha a porta fechada
Exercício de lingüística:
Hoje faço 27 anos. Não é muito nem pouco. Abandonei hoje um quinto da minha parte podre. Meu vizinho tem mais ou menos a mesma idade, estamos nos entrelaçando. Nossas raízes se tocam. Ainda não tive um filho. Os homens sempre comem meus gametas.
Ouça
Sinta o momento de desespero do seu corpo
Pequenos milhares de mortes.
Colapsos que resultam no formigamento
Nervos supérfluos
Alvéolos submersos drenando.
Baixa de oxigênio
Alta de gás carbônico
Bombeie mais sangue.
pum pum pum.
Você está latejando.
Exercício de ódio:
Destile – Engraçado é ver daqui o desespero que a fragilidade de vocês causa. Cada vez mais rápidos. Querendo engolir o mundo. E ainda faço parte da maior biomassa do planeta. Querendo que a maçaroca final se forme. Que venha logo a decisão de tudo. Meus planos se arquitetam alem disso. O seu significado de ‘inteligência’ o reduz ao pó. É verdade. Estou aqui condicionada. Tem coisa mais nojenta que um humano te abraçar? Tão efêmero que me enoja. um simulacro chocho de um enraizamento. Uma metáfora besta. Um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez.
Precisa jogar fora o ar. Trocar por um novo. com mais oxigênio.
Não troque. Pegue mais.
Você vai arranjar outra saída pra esse gás carbônico.
Agora feche os olhos. Não precisa mais deles.
Não deixe o escuro te assustar. Imagine uma névoa branca.
Enturvescendo. Submerso em leite.
Qualhando. Mova seus braços e sinta retenção.
Petrificando.
Exercício de naturalidade:
Gosto de ver a televisão. Assisto de noite, terças e quintas. É quando o segurança traz a televisão até nós. É engraçado como os atores tomam proporções diferentes na tv. Eles parecem maiores, mesmo sendo menores.
E Agora quer mais ar. Injete.
Anule suas ramificações externas.
Epiderme não há
Endoderme não há.
Seus ossos amolecem
Suas costelas são liguinhas de amarrar dinheiro
Seu pulmão expande.
Entra mais ar.
Pulso calmo.
Não precisa mais ir tão rápido.
A unidade de tempo agora é outra.
O gás que te queima por dentro. Exponha pelos poros. Abra caminho matando as células.
Exale por todos os poros.
Já não queima mais.
Agora você respira num sentido único.
Enterre seus pés no chão. De modo que perca as unhas. A sola.
Sua barriga incomoda. Fezes secas retesam o intestino. Urina tenciona a bexiga.
Faça intestino e bexiga uma coisa só.
Num canal que prolonga aos pés.
Ao chão. Sua noção de indivíduo transmuta.
É de seu direito vasculhar o que há sob você. E você pode reorganizar isso. Dentro e fora.
Mova seu indicador até a ponta do mamilo.
Ache uma entrada.
Não tenha pressa.
Ela se alarga.
Estalactites são feitas gota
a
gota.
Aí está seu pulmão.
Ache a dobra.
Pressione.
Ache o primeiro ramo.
Exponha.
Aumente o buraco. Deixe os ramos alveolares saírem.
Sinta.
Você quer mais oxigênio.
Muito mais.
Jogue sua língua fora, escancare a boca, você quer tragar toda atmosfera
Estou tentando um manifesto. Esse rascunho. Uma biografia. Tentando traduzir meu mundo para que tomem nota. Que se identifiquem e que relevem meu corpo aqui. Porque tenho medo.
Deixe seus galhos alveolares partirem.
Puxe do chão e transfira para os alvéolos faça deles a grande massa, é daí que vem o teu prazer.
Oxigênio.
Isso que tem entre as pernas, introjete, traga para as pontas.
Bole seu esquema. Mimetize formas, use as cores. Observe os pássaros e insetos, use-os.
Crie Relações, desprenda sua energia.
Tenho medo porque cortaram meus ramos. Cortaram meus galhos e depois arrancaram minha metade de cima.
Você precisa de uma camada.
Faça uma muda.
Como fazem os insetos, as cobras.
Forme um casulo para depois rompê-lo.
Tenho medo porque mesmo sem querer estou renascendo. E sei que agora sou um incomodo para vocês. Se vão, como dizem, cortar o mal pela raiz. Se vão me extrair. Se vão injetar veneno. Ou queimar.
Seu ritual de passagem.
Agora você sabe de onde eu vim.
Dos ouvidos não precisa mais.
Agora falamos a minha ‘linguagem’.
Farfalhe os alvéolos quando alguém morrer.
É o seu gesto de saudade.