Vórtice Grotesco: Perversão e Violência na Imagem – Introdução –

fevereiro 3, 2008

cabeça com buceta

 

Olá a todos. Estou retomando o blog. Dei uma resetada, mas os textos toscos continuam em suas respectivas páginas. De agora em diante colarei os textos que penosamente preparei para a minha dissertação de mestrado. (Essa ilustração vai continuar aqui pq quando se pesquisa ‘buceta’ no google images ela gosta de aparecer, então é sacanagem tirá-la). Segue a introdução (deixarei como está na impressão, algumas coisas não farão sentido num blog, mas basta imaginar que está lendo um texto impresso):

Introdução

Essa dissertação trata da possibilidade do grotesco no desenho narrativo. Primeiro serão esclarecidos os termos e a manifestação do grotesco através das eras para que se tenha um constructo particular do tema para então depois colocar em questão minha produção poética no desenho narrativo. Toda a análise será feita de um viés que privilegia a poética do desenho. Mesmo sendo citadas diversas outras mídias, a discussão se dará primariamente nas fronteiras do que cabe à formalidade do desenho narrativo, desprendendo-se das condições específicas da pintura, fotografia, cinema e gravura.

Sugiro que folheie este calhamaço, que como parte dessa introdução se faça uma visita rápida às figuras impressas contidas no final. Que dê início à leitura e ao se deparar com os esquemas no início de cada capítulo, observe os esquemas, mas espere chegar ao fim do capítulo para entendê-lo completamente. Estes esquemas cumprem uma função ilustrativa de rememorar e organizar o pensamento de forma imediata e metafórica. Deixe o esquema final, o da conclusão apenas para quando terminar toda a leitura, o mesmo estará escondido dobrado.

Ao revisitar minha produção, cheguei à conclusão de que o grotesco funciona como linguagem simbólica mais do que como o assunto em si. Esse gosto me acompanha através do desenho desde uma época muito remota de onde encontrar a verdadeira raiz é uma tentativa incerta. É uma motivação que existe para mim desde sempre, como a comunicação verbal. E evoluiu da mesma forma: na língua, da forma rudimentar para uma linguagem com palavras e daí para frases compostas. Por meio dessas mesmas palavras, estudam-se no colégio as origens, a gramática, sintaxe, semântica, etc. Com o desenho e o grotesco, o mesmo ocorreu até o 3º grau, onde finalmente se estuda a linguagem do desenho e seus assuntos.

Recordo-me de uma professora, talvez da quinta série do primeiro grau. Eu costumava desenhar nos textos, atrás das provas, nas páginas de abertura dos cadernos e nas últimas, nos arredores da margem. Um dia, ao me devolver uma prova corrigida, com um desenho atrás, ela disse que eu sempre desenhava essa categoria de coisas, não me lembro o termo que usou, mas poderia bem ter sido ‘grotesco’. Desenhava caveiras, fantasmas, sangue, óculos escuros, armas, facas, mãos machucadas, punks e etc. Não sabia copiar diretamente as referências, ia armazenando-as mentalmente, depois desenhava como se estivesse a inventar as coisas. E, por meio desses elementos (as caveiras, em especial), fazia a abertura dos cadernos, estavam lá para anunciar que aquilo era o caderno de matemática, estudos sociais, ciências, português ou seja lá qual fosse a matéria. Fazia isso como se fosse óbvio. Não serviam borboletas, bolas, nuvens, pirulitos, carros ou aviões. Eram esqueletos e motosserras. E essa professora foi quem me alertou do padrão.

No segundo grau, um amigo me apresentava como o sujeito que desenha caveiras, e eu me ofendia, pois achava que meu repertório ia muito além de caveiras.  No 3º grau, revisitei meus calhamaços de desenhos em busca de padrões, e aí sim confirmei: caveiras, heróis violentos, morte, assassinatos, desmembramentos, suicídios, estupros, armas, etc.

Estudar esses desenhos e seus padrões me induziu a retrabalhá-los em outras esferas, aumentando a complexidade dos símbolos, saindo da esfera da pura diversão para uma comunicação mais codificada. Porém, o ponto de partida disso tudo é misterioso. Estudá-los, por um lado, levanta informações e, por outro, é como uma autópsia: para entender é preciso romper o lacre, cortar, revirar, esmiuçar. A carcaça, no final das contas, poderá ser encontrada estraçalhada, o inacessível ─como procurar memórias em um cérebro com um bisturi─ permanecerá desconhecido. É como nomear as formas insólitas do pensamento e condená-los a usar rótulos.

Este trabalho acadêmico pretende funcionar mais como uma biopsia sistemática a fim de elucidar e esclarecer o que se revolve no escuro, mas que preserva ainda a subjetividade, sem cessar a pulsação constante do trabalho de desenho, que, quando revisitado, às vezes nos surpreende com algo novo. Por isso primeiro se analisará o assunto do grotesco

Grotesco é um termo que hoje tem acepção bastante acessível, sendo entendido popularmente por feio, obtuso, mórbido, bizarro, exagerado, ridículo, deformado, monstruoso, escatológico, infernal, às avessas; enquanto categoria estética, enquadra o ridículo e bufonesco ao alheado, estranho, demoníaco, teratológico e rebaixado.

Temos diversas manifestações do tema, desde a antiguidade até a massiva produção da contemporaneidade, onde encontramos o grotesco como uma das vertentes férteis da cultura, seja erudita ou de massa. O interesse dessa pesquisa está em analisar a origem do termo, suas transformações e seus representantes, enquadrando depois minha produção dentro dessa categoria através das experiências fundamentais da Poética aristotélica, e finalmente, sua relação com o desenho narrativo

Ao retomar a origem do termo, teremos descobertas significantes e que enriquecem sua complexidade enquanto fenômeno ou categoria estética. Nos capítulos I e II, abordarei essa origem, suas transformações ao longo da história, por onde o grotesco amplia sua abrangência, passando por diversas manifestações.

Quanto aos referenciais teóricos, apresento um estudo do grotesco alicerçado numa confluência de autores, do crítico literário alemão Wolfgang Kayser, com ‘O grotesco’, de 1957, passando pelo crítico literário russo Mikhail Bakhtin, com ‘A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento’, de 1965, ao casal brasileiro de professores da comunicação Muniz Sodré e Raquel Paiva, com ‘O império do grotesco’, de 2002. Com estes autores, constrói-se uma base de significação do grotesco, suas origens e o trânsito de suas manifestações.

Todo o levantamento teórico, histórico e de representantes do grotesco nesta pesquisa está polarizado nos dois termos que separam os dois primeiros capítulos, o ‘elevado’ e o ‘rebaixado’. O grotesco elevado está concebido a partir da ótica de Wolfgang Kayser, que construiu, por meio de sua obra, um grotesco sutil, pessimista, germanocêntrico, calcado nos termos ‘abismal’, ‘demoníaco’, do estranhamento, do autômato, do lúgubre, da perplexidade. Kayser aplica uma visão romântico-modernista do grotesco às diversas representações que cita, um ‘grotesco de câmara’, conforme Bakhtin o criticará mais tarde. Então, por elevado, considero essa polarização do grotesco que parte da visão erudita do crítico alemão.

A discussão do grotesco excluído de um contexto geral fatalmente pende para uma desarmonia, exigindo, assim, um contrapeso, uma dinâmica, convergindo o estudo para o tema do sublime. Para tal, o percurso retoma a ‘Poética’, de Aristóteles, publicada entre 334 e 330 a.c., e o tratado ‘Do Sublime’, de Longino, publicado na primeira metade do séc. I a.c..  Depois, com ‘Uma investigação sobre as origens de nossas ideias do sublime e do belo’, de Edmund Burke (1756-1757). Dentro dessa possibilidade, proponho um sistema idealizado de produção do sublime por meio da experiência da katharsis com obras de desenho narrativo.

No capitulo I, tratarei do trânsito formal do grotesco do ponto de vista ‘elevado’. Este capítulo se divide em ‘Imagem’, em que se trata do grotesco nas artes visuais e na ‘Literatura’, em que se trata da literatura grotesca, mais precisamente na teoria e na narrativa literária. Na ‘Imagem’, partimos da origem do termo grotesco na pintura ornamental de gruta até uma pequena seleção de artistas. Começando com Bosch e terminando com os surrealistas, abrangeremos um leque de diferentes morfologias do grotesco. Na literatura, trataremos dos principais representantes citados por Kayser, da teoria romântica e seus romancistas até a poesia surrealista de Hans Arp.

No capítulo II, passamos para a ótica do rebaixamento, através da teoria de Mikhail Bakhtin, contesta-se a visão de Kayser e complementa-a com a parcela negligenciada do grotesco rebaixado. Depois será apresentado um ponto de vista da comunicação, com o casal Sodré & Paiva, atentos para o grotesco na cultura de massa. E, por fim, apresento referências contemporâneas que assimilam estas visões, das quais compartilho em meu trabalho prático.

Se nos capítulos I e II vemos a extensão estética do grotesco, no capítulo III o foco recairá na experiência de produção e identificação de obras grotescas. Para tal, apresento a teoria das experiências fundamentais aristotélicas para obras de arte, a Poiesis, Aiesthesis e Katharsis. Por meio da Poiesis, trago meu testemunho de produtor de imagens grotescas e, na Katharsis, desenvolvo a sua possibilidade tanto a partir da produção quanto da recepção e aproveito para discutir a relação do grotesco e do sublime.

O capítulo final (IV) trata das possibilidades da narrativa no desenho diante do que já foi dito nos capítulos anteriores. Tratarei da narrativa mediante três tópicos: ‘as fábulas da tradição oral do séc. XVIII’ do registro do antropólogo Robert Darnton, onde se retoma uma versão crua dos contos que conhecemos até hoje; ‘a figura do narrador’ levantada pelo crítico literário Walter Benjamin, que revê importantes aspectos da narrativa e, por fim, a literatura fantástica proposta por Tzvetan Todorov, para situar-nos mais sobre a fantasia e alegoria que são meios perenes para o grotesco e para o meu desenho. Do desenho trata-se das qualidades específicas desta técnica para a construção de obras narrativas, da proposta de exercitar a narrativa a partir de um jogo de imagens ou de se produzir imagens concatenadas numa narrativa linear. Finalizaremos com um levantamento da exposição ‘Pele e Osso’, produzida durante a pesquisa, que servirá como confluência dos assuntos tratados na dissertação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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